Envie Seu Post: Carol Neves

Por: | 18:44 2 comentários

Interstellar: aquilo que fica além do horizonte
Um dos melhores filmes do ano?

Como escrever uma resenha de um filme sem dar spoilers?
Sempre me faço essa pergunta, mas assim que saí do cinema, decidi que esse filme merecia a tentativa.
Interstellar é um daqueles clássicos que se passam em algum lugar (obviamente nos Estados Unidos) no futuro. Mas, nesse caso, num futuro não exatamente pós-apocalíptico e não exatamente distópico. Carol, do que diabos você tá falando?você pode se perguntar. E eu, Carolina, Kate não oficial te repondo: calma que eu já chego lá.
Primeiro uma pequena sinopse: num futuro onde tempestades de areia e pragas desolam a Terra, tornando a fome o problema número um do mundo, a humanidade parece finalmente estar sendo expulsa de seu primeiro lar. Sim, primeiro. Pois eis que somos apresentados ao personagem principal, Cooper: viúvo, pai de dois filhos e ex-piloto, que finalmente sai de órbita, viajando através de um buraco de minhoca com a missão de achar um novo lar para a humanidade.
Então vamos lá, sabe aqueles filmes que constroem uma expectativa tão grande em volta de si que parece ficar fadado a te decepcionar? Pois minha expectativas foram atendidas.
Não importa se você entende de ciência ou não, Interstellar vai fazer você se sentir que nem uma criança de novo. Quando você terminar de assistir o filme, vai se sentir emaranhado na relatividade e como se a gravidade tivesse caído para 70%.

A Teoria da Relatividade de Einstein é mostrada de uma forma prática nunca antes alcançada. Gravidade. Quântica. Eletrodinâmica. Evolução. Interstellar não foi um projeto com espaço para incompetência. O roteiro de Jonathan Nolan (seu primeiro roteiro solo) foi escrito inicialmente para ser dirigido por Steven Spielberg, que logo desistiu do projeto. Então o irmãozão Chris Nolan (diretor da trilogia Batman Begins, Inception, Man of Steel, Transcendence) abraçou o projeto com gosto, entrando em alterações de roteiro para deixar tudo de acordo com seu olhar, além de que Kip Thorne (o cara que teorizou o Buraco de Minhoca) acompanhou o roteiro e a equipe de efeitos especiais - a concepção artística do buraco negro irá render ao cientista novos trabalhos científicos! -.
A ideia do filme veio da produtora Lynda Obst e do próprio Kip Thorne, eles queriam um filme onde “Os eventos mais exóticos do universo de repente tornassem acessíveis para os seres humanos”. Logo de cara, Spielberg se interessou. Jonathan Nolan foi chamado para escrever o roteiro em 2007, equando Spielberg pulou do vagão por motivos burocráticos, foi aí que Jonathan recomendou o irmão.
Jonathan passou quatro anos escrevendo o roteiro, chegando a estudar relatividade no Instituto de Tecnologia da Califórnia, além de tirar inspiração de filmes como Wall-E, e um documentário sobre o Dust Bowl (chegando até a usar depoimentos do documentário no filme.

Tia Carol explica: O Dust Bowl foi um fenômeno climático de tempestade de areia que ocorreu nos Estados Unidos na década de 1930 e durou quase dez anos. Gerando um desastre econômico e ambiental que afetou severamente boa parte do país nessa altura. Alguém aí se lembra da Grande Crise de 30? (Não que a gente estivesse lá pra lembrar, mas enfim) Meu antigo professor de história manda um beijo-, chegando até a usar depoimentos do tal documentário no filme.

Todo esse trabalho possibilitou um universo onde todas as teorias que existem sobre o cosmo funcionam e coexistem em harmonia, fazendo o filme ser crível e despretensioso. Mesmo que, sejamos honestos, esse filme não é inteligível para qualquer um.

Chega de chatisse, me deixem comentar as atuações:
Essa não é a primeira vez que Matthew McConaughey deu um show - quem já assistiu Dallas Buyer’s Club sabe do que eu tô falando -, mas eu não deixo de ficar embasbacada quando lembro que esse cara até uns anos atrás só fazia papel sem-vergonha, e hoje tá aí sendo basicamente o melhor de Hollywood. Como Cooper, McConaughey passou por tudo: momentos de segurança, descontrole, amor, raiva, humor, tudo com muita emoção envolvida. Levando o expectador a acreditar no personagem e esquecer que o texano já atuou em filmes como Um Amor de Tesouro. Sinto um Oscar consecutivo chegando.
Agora os coadjuvantes: sou muito fã da Jéssica Chastain desde Os Infratores - o seu papel como Murphy, filha do personagem principal, é emocional e apelativo, sendo basicamente o maior núcleo emocional do filme (ninguém dá uma bronca que nem ela), até nas cenas em que não aparece. E vamo combinar, a menina que fez a Murph criança, Mackenzie Foy (cof Reneesme Cullen cof) deu um show, e fiquei muito agradavelmente surpresa por ver a Ellen Burstyn (Réquiem para um Sonho) como a versão idosa.
Agora, uma das coisas que eu achei mais legal do filme, foi a sutileza com a qual Anne Hathaway interpretou a biologista Amelia Brand. A gente já tá acostumado a ver a Hathaway com grande foco em filmes como Os Miseráveis e, sei lá, Noivas em Guerra. Mas a sutileza da maior parte de suas cenas foi tocante, ela soube quando descer um pouquinho e deixar os outros atores brilharem. Por exemplo, eu adorei o Romilly, interpretado pelo ator David Gyasi. A cena em que Cooper e Brand voltam para a nave após 20 anos terráqueos (por causa da relatividade -todo mundo sabe o que é?) e o terceiro astronauta além de estar grisalho, fala mais pausadamente, num tom baixo e até mesmo se senta de uma forma diferente, quase não ocupando espaço.

Agora vamos lá, vejam, o filme é dividido em três atos:

PRIMEIRO ATO - Vi alguém chamar essa parte de A Colheita, e achei apropriado.
Lembra que eu falei que o roteiro inicialmente tava sendo escrito pro Steven Spielberg? Essa primeira parte foi pouco mudada do script original e é possível ver um filme Spielbergiano nascendo ali (assim me dizem os fissurados em Spielberg), não vou lidar as mudanças de script aqui, porque foram muitas, mas a mais interessante - na minha opinião - é que a Murph, era pra ser um menino. Mas desde que Chris Nolan virou pai de uma menininha, ficou mais interessado em retratar esse tipo de relacionamento.

O primeiro ato, basicamente, constrói o clima e o plano de fundo possiblitando a viagem de Cooper, Brand, Romilly e Doyle (Oi, Seneca Crane de Jogos Vorazes) para o espaço. Reforçando mais ainda aquela coisa de que filmes apocalípticos sempre tem uma família americana e pai e filha contra os alienígenas, aquele vibe meio Guerra dos Mundos - Tom Cruise carregando a Dakota Fanning pra todos os lados -.
Uma coisa interessante do filme é que ele nunca diz em que ano se encontra, fugindo da apelação que os números podem gerar. Mas fica óbvio que é bem no futuro com as tecnologias.
Agora, a sacada das tempestades de areia e a praga que consome oxigênio foi ó: supimpa.

SEGUNDO ATO – A Viagem
Aqui é a parte em que ocorre a viagem para o espaço efetivamente, e quando a ciência é finalmente colocada em prática: – relatividade – ondas gigantes – Cooper vendo o filho 23 anos depois (melhor cena).
COOPER VENDO OS FILHOS 23 ANOS DEPOIS, gente, xent, mas geeeente. Vocês choraram também? Porque não tenho vergonha de admitir que tive que enxugar meu rosto depois.
Aquela cena, aquela cena.

Sinto cheiro de Oscar


Tia Carol explica Relatividade: Ok, tentem pensar um pouquinho fora da caixa junto comigo:
O princípio da relatividade é que as leis da física não mudam, mesmo para objetos que se movem tendo a inércia como referência (velocidade constante). E lembrem também do princípio da velocidade da luz que é a mesma para todos os seus observadores, independente da velocidade relativa da fonte da luz. Basicamente, se você se mover velozmente o suficiente no espaço, as observações que você faz do espaço e do tempo se diferem de alguma forma das observações das outras pessoas, que estão se movendo em outras velocidades. Tipo, se você pudesse viajar à velocidade da luz, o tempo ia basicamente parar pra você! Como você está se movendo numa velocidade muito maior, o tempo passa mais devagar para você do que as pessoas que estão mais devagar. A rotação do planeta em que Cooper, Brand e Doyle visitam é muito diferente da que a rotação da Terra.
·         É daí que vem a teoria de que a matéria e a energia estão tão entrelaçadas quanto espaço e tempo, vem a equação E = mc2 (energia = massa x a velocidade da luz ao quadrado).

Uma observação sobre essa parte do filme, é que o roteiro perde qualquer possível associação com Spielberg e é massivamente caracterizado pelo estilo do Christopher Nolan, O cara EXPLICA TUDO (tipo eu, hehe), às vezes até tirando o ritmo e o suspense do filme. Aqueles diálogos dos personagens conversando entre si e explicando tudo é bem característico. Lembrem-se de Transcendence, Inception, Batman, todos os filmes dele tem isso.

Ps.: Como o próprio filme explica o buraco de minhoca, não achei que eu precisava explicar também.

TERCEIRO ATO – Quando a coisa fica mucho louca
Agora o ato final: a queda de Cooper pelo buraco negro.
Me digam vocês. Será que o filme desanda ali?
As motivações do Matt Damon ficaram claras pra todo mundo? – Que ele ficou louco e só não quer morrer sozinho no espaço, logo ele que encabeçou a missão.
Será que o filme perde o ritmo ali? - Eu não acho, foi a parte que mais me deixou agoniada.
Mas caras, a concepção artística  dessa parte do filme, o uso maestral da câmera Imax. Sou uma sucker por fotografia cinematográfica, e meus olhinhos brilharam nessa parte do filme.
Vamos agora pra mais um Tia Carol Explica, prometo que é o último.
Quando Cooper entra no buraco negro, o filme entra também numa teoria que a Ciência ainda tem muito a estudar, a partir dali são apenas teorias – a ciência não sabe mais.

O que acontece naquela cena do pai olhando para todas as épocas do quarto da filha, é que Cooper está interagindo com a sua própria linha do tempo.
Ao entrar num buraco negro você teria uma interação com essas dimensões superiores.
Nós, humanos, interagimos apenas com três dimensões: ruas, andares, coordenadas, isso. Pensa, toda vez que você combina de se encontrar com alguém, você nunca combina o horário de encontro sem dizer o local, ou vice-versa. E assim, coordenadas de verdade, aquelas que navegadores usam, possuem quatro números (basicamente). Então, são quatro coordenadas: três de espaço, e uma de tempo. Nós sabemos que precisamos de um espaço e tempo combinados para poder combinar um evento. A ideia de que nós vivemos em quatro dimensões não devia ser surpreendente para as pessoas. A diferença, é que não somos limitados a três dimensões de espaço (tipo teto, parede e chão. Ou rua, prédio e andar. Posso andar pra esquerda, para a direita ou pular, etc.). Posso interagir em todas as três dimensões em que me encontro, mas nós somos escravos do tempo, somos prisioneiros do presente. Não temos acesso ao passado ou ao futuro.

Carol viaja: já reparou que viver é uma constate viagem no tempo? Cada passo que você dá, você sai do passado e entra no futuro, mas sem nunca sair do presente.

Uns amigos meus me disseram que não entenderam, essa parte do filme, e foi o que me inspirou a escrever esse post, pra tentar ajudar a galera a entender.

Carol Viaja e explica os paranauê:
Então, pensa no fim do filme: se você consegue acesso a uma dimensão superior, não é estranho pensar que você está em outra dimensão de tempo e pode olhar para o tempo como se estivesse olhando para o espaço, como se estivesse olhando através de janelas. Então, muitas perguntas e afirmações que fazemos nas nossas vidas não fazem sentido naquele sistema de coordenadas superior (i.e dimensão superior). A pergunta “Quando você nasceu?” não faz sentido, porque desconstruindo a nossa prisão no presente a resposta seria “Eu sempre estive aqui, eu sempre estive nascido.” (? - quem não entendeu pergunta nos comentários, que a tia Carol tenta explicar de novo). “Quando você começa a faculdade?” Você sempre esteve na faculdade *música de terror no fundo*, se o tempo pode se dobrar entre passado, presente e futuro, as coisas aconteceriam todas ao mesmo tempo e interminavelmente. Se a sua linha do tempo estivesse aberta na sua frente, você teria acesso a ela e a qualquer parte da sua vida, poderia reviver. Seria possível mudar o passado? Ou apenas reviver todo e qualquer momento da sua vida? Impossível saber. Seria possível reescrever permanentemente a sua vida? Isso não geraria um ciclo sem fim? Essas perguntas são fascinantes, especialmente num filme que explora o relacionamento de pais e filhos.
O filme também diz que o amor seria uma força tão forte quanto (talvez maior?) que a gravidade, já que Cooper foi parar justamente no quarto da filha, de todos os lugares e tempos do nosso universo. Quem diria que Christopher Nolan tem coração mole?

Mas enfim, a gente não sabe o que realmente tem dentro de um buraco negro.
Então tente levar as coisas menos a sério e aproveite o filme ;)
Depois de toda a viagem, vem aquela parte que é pra ~vender ingressos~, a barra é levemente forçada com todo o apelo emocional usado. Apelo emocional que funciona perfeitamente comigo, que sempre choro nessas cenas. Mas sem essas cenas de família e amor e as brigas, o filme ia virar documentário.

Conclusão: A humanidade sempre admirou tanto as estrelas, e sempre vai se perguntar "As Perguntas": A gente tá sozinho? Somos um acaso? O que vem além do horizonte? O que o futuro guarda?
Então será que faltou um pouco de magia no filme? Um pouco de mistério? Além daquela menção sem vergonha dos Outros, ou Eles, ou sei lá como legendam/dublam They hoje em dia. Mas eu não tenho o que reclamar, saí do cinema leve, com o sentimento de maravilha de quando eu olhava pro mar quando era bem pequena, espero que todos tenham se sentido assim.
Pra mim, Interstellar põe todos os filmes que eu já vi sobre espaço no chinelo (me falaram que eu devia assistir 2001 - Uma Odisséia no Espaço antes de dizer isso, há!). Diabos, Interstellar põe praticamente todos os filmes de 2014 no chinelo.





























Ps.: Se você realmente leu esse post inteiro até aqui, além de ser uma pessoa linda, você devia comentar aqui embaixo com a sua opinião, crítica, o que der na telha.  Eu acho que a gente devia começar uma amizade.


 Carolina Neves, 20 anos, virginiana (não acredita muito em signos, mas é super perfeccionista), estudante de jornalismo, nunca sabe quando calar a boca, tem um problema com hierarquias e adora meter o narigão onde não deve. 

2 comentários : Deixe o seu comentário

  1. Eu li tudooo!!! E foi muito bom porque eu realmente não tinha entendido direito o fim do filme kkkk O post ficou incrível Carol <3

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  2. Olá! Parabéns pelo texto, só uma observação. Transcendence não foi dirigido pelo Nolan

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